A atração pelo surf é subestimada. Eu comecei a surfar cedo, em uma idade um tanto quanto precoce; Mas não considerava os efeitos a longo prazo desta nova experiência. Nem os meus pais. Em 1995, a pratica do surf já era socialmente aceita. E como criança eu tinha um monte de tempo livre em meus dias, por isso minha paixão pelas ondas nunca entrou diretamente em conflito com nada.

No glorioso pico de Wainui Beach, Nova Zelândia, de onde escrevo, eu recentemente vi um iniciante deslizando pela linha da onda, sorrindo de orelha a orelha. Por que ele estava sorrindo? Quando você vê como cada onda quebra de forma única e um tanto quanto bizarra até, cada uma como se fosse um novo presente para você, e como você consegue aproveitar essa energia e a gravidade da Terra para deslizar através da superfície da onda, você começa a entender o porque e a desenvolver uma apreciação para o mundo natural.

comeca aprende surfar

Uma onda pode proporciona-lhe imenso prazer. E, se você surfa regularmente, ainda fica com o corpo em forma, mantém um bom apetite e naturalmente bronzeado pela abundância de sol. Em um nível mais profundo, o surfe é uma busca espiritual. Gerry Lopez chama de “dança da atitude”. Se você surfa, há uma série de razões para sorrir.

O engraçado é que os surfistas experientes que esperavam no outside não sorriam. “É tão pequena”, resmungou um. Sentavam-se pacientemente como boias no ponto de decolagem para a onda do dia. Com as costas viradas, zombavam ignorantes sobre as seções que quebravam no inside. Se você surfa por muito tempo, você parece querer maiores, mais rápidas e mais perfeitas ondas.

Somos apenas seres humanos, uma espécie patética originada de macacos selvagens. Não podemos nos controlar, porque é algo muito maior. Vícios fazem parte de nossas vidas. Todos nós temos que lidar com isso, seja diretamente ou através de outra pessoa que conhecemos. Algumas coisas nos proporcionam imenso prazer, e por isso queremos fazê-las novamente.

Queremos sentir o prazer de novo.

surfista remando onda comeca

E de novo.

Queremos que ele seja tão bom quanto foi na primeira vez. Ficamos insensíveis e nos lançamos em situações que desafiamos até mesmo a morte para obter o mesmo ímpeto de antes. Pessoas morreram surfando.

Não foram encontrados quaisquer estudo sobre a neurociência dos amantes das ondas, mas há um neurocientista chamado Judson Brewer que analisava o vício com outros tipos de exercícios. Podemos estender suas conclusões para o surf? Aqui está o que ele tinha a dizer:

Algumas pessoas surfam sem que isso afete negativamente suas vidas, e outras tornam isso um vício. O mesmo vale para outros tipos de exercícios. Eu diria que há um processo de aprendizado semelhante em todos eles, e que isso pode ser moderado por fatores genéticos (e provavelmente ambientais), assim como ocorre com os outros vícios (por exemplo, por que algumas pessoas ficam viciadas facilmente em cocaína, e outras não?).

De um modo semelhante, eu poderia dizer que em um paradigma de aprendizados baseado em recompensas, que pessoas desenvolveram uma tolerância com ondas medíocres, de modo que eles não recebem mais a mesma excitação quando deslizam sobre elas (esta excitação poderia ser similar com o que ocorre em situações altamente emocionais e/ ou com o uso de drogas, mas, obviamente, não com a mesma intensidade). Isso levaria as pessoas a se cansarem com o surf usual e procurar ondas mais difíceis ou novas/ diferentes, como os picos com maior qualidade para o surf. Pessoas com vícios muitas vezes os “perseguem” em um nível elevado. Talvez isso também aconteça com surfistas.

surf surfar onda perfeita

G-Land. Zicatela. Chicama. Há toda uma excitação incompreensível com relação a estes picos. A mídia do surf tem os documentado e comemorou-los desde os anos sessenta. E eles estão lá fora em selvas remotos, como santuários para que você faça a peregrinação. Algo como um nômade surfista mesmo.

Dizer que surfistas embarcam em surf trips por qualquer outro motivo – que eles estão mesmo genuinamente interessados nos países que visitam – é uma mentira. As ondas vêm em primeiro lugar. Viajar é um subproduto. Tudo é um subproduto. Sua vida se torna uma missão em busca de novos, diferentes e até inéditos picos.

Em 2004 minha vida mudou em uma viagem para um lugar fora da rota convencional, no México. Foi a minha primeira viagem para fora do país. Lá eu conheci todos os mais variados tipos de surfistas. Australianos especialistas em ondas grandes, nômades andarilhos da Califórnia em suas combies, habilidosos tube riders de todas as partes do mundo. E eu era apenas um garoto da faculdade experienciando aquiles momentos. O que mais me surpreendeu observando tudo aquilo era que aqueles caras não fizeram nada além de … surfar. Um colaborador resumiu muito bem:

Há um mundo oculto por ai: um local com ondas a serem rasgadas, vagabundos sonhadores, costumes estranhos, locais curiosos e uma busca incessante por adrenalina. Ser atraído para esse mundo de trabalhadores ambulantes é fácil. Eles caminham pelo planeta, muitos pulando de emprego em emprego, de um lugar para outro, deixando relações de amizade e até mais íntimas para trás, tudo em busca de apenas uma coisa: a onda perfeita.

Nunca tinha estado a par desses surfistas “rebeldes”, alter ego. Eu tinha contornado a subcultura de minha sociedade e ido diretamente para uma viagem exótica. Mas ficando cara a cara com os loucos, pensadores livres despenteados, e viajando em uma surf trip sem orçamento alto, como eles estavam, me fez repensar a vida um pouco. Eles, inconscientemente, me fizeram flertar com seus estilos de vida – a analisar a possibilidade de uma vida sem as limitações de um trabalho 9-5, assim como milhares de surfistas fizeram e tem feito desde o último meio século.

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Ser surfista “vagabundo” é tão simples, tão silenciosamente subversivo. Você precisa de um passaporte, uma prancha de surf, um pouco de dinheiro, e a vontade de partir. Como quando você rema para uma onda, você deve fazer isso sozinho – ninguém pode decidir por você. Você que pesa um estilo de vida contra o outro. O que vale mais: a segurança de um salário, ou a realização espiritual? Como William Finnegan sugeriu, embora a prática do surf seja absolutamente apolítico, ele carrega no esporte, na maioria dos lugares e contextos, uma fé levemente anárquica sobre o que realmente importa.

Há uma razão pela qual a maioria dos surfistas nunca se tornam CEOs, chefes de estado, ou intelectuais. O nosso tempo é limitado. No sacrifício do futuro, nós vivemos o presente. Assim como a onda pré-moderna de surfistas que vieram mil anos antes de nós, abandonamos tudo por conta do próximo swell, e mergulhamos de cabeça, corpo e espírito no mar, a nossa verdadeira fonte de vitalidade.

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* texto livremente traduzido e adaptado do artigo de Ethan Walker no site Matador Network

**Este post não representa em sua totalidade os ideais do editor do Vida Outside, mas proporcionou uma reflexão a respeito de um assunto bastante recorrente e que vale ser debatido.

***Nos comentário abaixo alguns foram retirados do artigo original visando acrescentar ainda mais a respeito do assunto.

 

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